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O Advogado e a pintura

O Advogado e a pintura

José Carvalhal é um Advogado para quem a pintura é, sobretudo, cor, com todas as suas potenciais variantes e combinações de tons manipuladas pelo homem.

Aí existe pintura, seja ela de que época for e independentemente da técnica usada para lhe dar expressão. Pintar começou por ser um pouco um ajuste de contas com o passado, isto no bom sentido, claro. Recorda os maus resultados que tinha a desenho e artes visuais. “Cada vez que havia trabalhos de casa que implicassem fazer desenho ou pintura, principalmente usando a geometria, e mesmo nos exames destas disciplinas, eu acabava sempre por não conseguir fazer rigorosamente nada e ser um colega de turma a fazê-lo por mim. Sem ajuda, era certo e sabido que chumbava.”

Na verdade, gostava da cor mas não do rigor da geometria passada a tinta-da-china, com régua e compasso, e muito menos desenho à vista, que depois era preenchido com cor. Quando começava com esses exercícios, perdia-se sempre pelo caminho e pedia que o deixassem pintar aquilo que tinha na cabeça, como que fugindo ao espartilho das linhas…. Pensava, então, que um dia iria fazer alguma coisa com cor, mas de uma forma livre e sem ter de desenhar, primeiro, as linhas dos objectos à vista para depois pintar o seu interior.

Muitos anos mais tarde, já muito depois de se ter licenciado e exercendo Advocacia há vários anos, sempre que podia visitava os museus que estavam ao seu alcance visitar e via com muita atenção as obras de William Turner, cuja luz admirava e invejava, e em que as formas eram praticamente ideias descomprometidas com o puro desenho das coisas visíveis. Admirava e contemplava com igual prazer as obras dos impressionistas que mais tarde se lhe seguiram e ficava horas a ver-se dentro daquelas cenas que o tocavam e o impressionavam profundamente e a imaginar como seria juntar todas aquelas cores e fazer criar aquelas representações de forma tão descomprometida, sem o rigor do compasso, da régua e do esquadro. E, ainda assim, ficava contemplando essas obras receoso com algum pormenor que tivesse a ver com o tal “bicho-de-sete-cabeças” que para si o desenho sempre representou.

No óleo seduzia-o o brilho que este meio tem para transmitir a cor, que brilha por si só e é de uma delicadeza extraordinária.

Um dia conheceu uma pintora francesa, uma pessoa de quem, mais tarde, se tornou um grande amigo. Ia muitas vezes vê-la pintar. “Incitava-me para que pintasse com ela. Tinha uma espécie de medo do desenho e desistia, sem razão aparente. Um dia disse-lhe que não sabia desenhar. Então, ela explicou que não podia confundir o desenho que me aterrorizava com a pintura e que podia pintar, usar a cor, criar através da cor, sem usar o desenho. Foi algo novo e senti que era o caminho certo.”

Então, foi procurando aplicar as cores de modo a dar-lhe algum significado, mas sem o premeditar, ou seja, sem o desenhar numa tela em vazio. Cor a cor, passo a passo, iam surgindo as formas, como que um aproveitamento resultante da simples aplicação das cores e da junção e sobreposição de umas cores com outras cores.

Depois do acrílico, chegou finalmente à experiência de trabalhar com o óleo, e aí o processo tornou-se mais complexo, pois tratava-se de outras técnicas da pintura, aprendeu alguma teoria da cor, noções de perspectiva, luz e sombra, etc.
No óleo, seduzia-o o brilho que este meio tem para transmitir a cor, que brilha por si só e é de uma delicadeza extraordinária. “É mais difícil de controlar, espalha-se facilmente e os tons misturam-se também muito facilmente.”

Na sua vida, pintura e Direito são complementares. O modo como passou a encarar as peças próprias do Direito é disso um exemplo. Ao necessário rigor científico parecia acrescentar o toque que a harmonia da pintura transmitia: “É como se reuníssemos, em cada palavra e em cada frase que escrevemos ou dizemos, uma paleta de cores que vão tornar a nossa profissão menos dura, talvez ainda mais humana, sem deixar de a sentir como uma das profissões mais tecnicamente exigentes ao serviço de todos os que precisam de recorrer a ela. E a pintura ajudou-me a ter, ainda mais, a consciência desta dimensão profundamente humana do Direito, que pode, assim, também ser exercido como uma bela arte.”

José Carvalhal já expôs no Conselho Regional de Lisboa

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