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Cultura Livro de lembranças

Tanto para ouvir, tão pouco para dizer

Tanto para ouvir, tão pouco para dizer

Confesso: hoje não sei que escrever. Há dias em que a imaginação falha, a memória está soterrada. Socorre-me este texto. Foi capítulo de um livro. Sub-roguei-me nele a quem tem como profissão escutar a vida alheia, anónimos que na polícia estão ao serviço das intercepções telefónicas, esse meio de recolha da prova que de excepcional se tornou banal. E quase tive pena. Triste missão. Lamentável.

“Está, estou, sim, diz”, todos os dias a mesma cantilena, os lugares-comuns do linguajar telefónico, todos os dias ouvir as chamadas nocturnas, em diferido, todos os dias estar atento às chamadas em tempo real – tempo real, que palavra estranha, como se houvesse tempo irreal... –, todos os dias viver à escuta das conversas alheias, que raio de emprego que um homem tem, “sim, filha, diz, agora não posso, já ligo”, a família que ligava também nos piores momentos, a mulher, a filha, esses a quem não podia ouvir por não ter tempo, todo o tempo era para escutar os outros, os telefonemas dos outros, conhecia-os a todos como se lhes tivesse visto a cara, o tom de voz, a alegria e a tristeza que exprimiam ao falar nas coisas grandes dos negócios e nas coisas miúdas das suas vidas privadas, mas quem é escutado pela policia não tem vida privada, perde-se tudo, o recato, o pudor, a reserva, quem escuta torna-se obsceno e indecente, viciado na vida alheia, cúmplice passivo em todas as porcarias, fornica quando os outros se rebolam no contar da fornicação, “sim, está lá, filha, amor, querida, que noite ontem, sim não houve problemas”, que nisso somos todos iguais em possibilidades e em desejos, numa só coisa há que ser indiferente e alheio a lágrimas e tristezas, que um polícia tem de se distanciar e sobretudo desconfiar, não há piegas entre os bandidos e todos os escutados são potenciais bandidos, e, no entanto, ao fim de um dia, de dois dias, de semanas inteiras à volta dos outros, um homem perde a vida própria, será isto, às tantas, uma doença, chega-se de manhã a arder de curiosidade sobre o que se terá passado durante a noite, fazem-se prognósticos sobre o que será dito na próxima chamada, pensa-se, pensa-se pelos outros, “não vais ser tão parvo que caias nesta arara” e ouve-se que afinal caiu, um polícia ganha desprezo pelos estúpidos mesmo quando são vítimas, um certo apreço orgulhoso pela vitória dos aldrabões, “cuidado com a bófia, que o telefone deve estar sob escuta”, mas mesmo assim falam, falam, contam e voltam a contar tudo ao pormenor e combinam, mesmo sabendo que a polícia escuta, e dizem palavrões, porque todos dizemos palavrões e ficamos feios quando nos ouvimos a tê-los dito, já para não falar nas concordâncias do português, o “a gente vamos”, mas se calhar é assim que se diz, ainda hei-de ver no prontuário, mas um polícia tem lá tempo para ir ao prontuário, e depois quando transcrever, horas e horas a martelar teclas, auscultadores no ouvido, que estupidez esta, raios me partam se não me mudam de secção, quando se transcreve põe-se tudo como foi dito, meias palavras inclusive e pontapés na gramática, que estes gajos falam mal para burro e eu se calhar não falo melhor, mas não me escuto, e se não foi assim que disseram, assim fica pelo que me parece, quem escuta de si ouve, já dizia a minha mãezinha, a minha mãezinha teria vergonha de saber que o filho vive disto, paga a prestação da casa e a escola dos filhos a ouvir a vida alheia, eu que levei duas chapadas em miúdo por ter sido apanhado a escutar às portas, mas falavam de mim, parecia-me ao menos a voz irada do meu pai, o “deixa-o lá” da minha mãe, e agora isto, isto todos os dias, muito fala esta gente, devem ter umas contas caladas de telefone ao fim do mês, hoje é dia para estar particularmente atento, vai haver uma grande operação, vim mais cedo mesmo, é madrugada e tenho sono, mas o telefone ainda não tocou, devem estar todos a dormir, que esta malta tem mais sorte que eu, para não falar no que ganham, e nem têm que escutar a vida alheia, nem têm de estar apertados para ir à retrete no meio de uma conversa importante, aperta as pernas que não a podes perder agora, tenho toda a investigação no terreno à espera e logo agora esta dor de barriga, malditos salmonetes, telefone, o meu, telemóvel “sim, diz, não, talvez mais logo, não, não sei a que horas saio, espera aí, eu não me esqueci, ó pá, nem todos têm a tua vida, não é?, e se me esquecesse, vê lá, morriam, não?”, mas agora não podia, não podia mais, estes gajos não ligam, devem ter mudado de telefone, “não, chefe, até agora nada”, “não, filha não é para ti, estou a falar com quem?, com quem haveria de estar, estou no serviço, não é?”, e ainda por cima um serviço em que não se pode dizer nem sequer à mulher o que se faz, não é por segurança, é por vergonha, e por segurança também, talvez, que elas são curiosas e querem saber, e “tu és parvo, não estás a ver o que eles queriam?”, armam-se em polícias mulheres de polícias, e agora aqui estou, já disse porcaria de vida, quero que me mudem de serviço, isto nem é nada, estou farto de ouvir, ouvir em casa, ouvir os chefes, ouvir os que falam, as meias palavras, isto só pode ser código, as pessoas nunca dizem o que pensam e quando falam é tudo em meias tintas, negócios a meias, “não há ninguém que me substitua, é só por um momento”, a equipa no terreno desde a madrugada, o telefone não toca, reina um silêncio estranho, da próxima vez preocupo-me menos, quando o meu pai morreu telefonaram-me estava ele já morto, vou aproveitar os pontos para comprar um telemóvel para a minha filha, já houve um tempo em que os telefones eram vermelhos e quadrados, a vinte e cinco tostões, havia um no Monte Carlo, ao Saldanha, foi desse que te telefonei a primeira vez, “querida, vamos logo ao cinema?”, e fomos, e desde aí não mais houve nem cinema nem querida, só o chegar sempre tarde, sempre cansado, sempre farto, sempre contigo ao telefone, eterna faladora, que terão as mulheres para tanto falarem?, que se terá dado na minha vida para ter tanto que ouvir?
Texto José António Barreiros, Advogado