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Cultura Artes & Letras

Como e por que é que um Advogado vai além do Direito. Por que é que escreve

Como e por que é que um Advogado vai além do Direito. Por que é que escreve

O convidado deste mês da Comissão para as Letras e as Artes da OA é o Advogado João Lobo.

Afirmou James P. Donleavy que a escrita é a arte de transformar em vantagem os piores momentos da existência. Talvez sim, ainda que as palavras, e sobretudo os sentidos que nelas se contêm e delas se evolam, intermediadas pelo leitor, largamente ultrapassem o querer do artista, volvendo, não raramente, a sua vontade seminal desvirtuada, quando não inerme.

No que me tange, por mais que cogite não consigo desvendar a inequívoca e basilar razão por que escrevo, para que escrevo, a fim de que escrevo. É-me possível tão-só identificar franjas, pulsões larvares, que se constituem em alor dessa ígnea combustão espiritual que se vaza no acto da escrita. Nada mais.

Sei que o gosto pela escrita, em parte, advém da qualidade de leitor voraz a que, logo na infância, me atribuí. Ela revelou-me outros planos imbricados no mundo tangível, com os quais passei a conviver. Escrevo porque li todos os textos que pude encontrar da velha Suméria, da civilização nilótica, os clássicos greco-romanos, a obra de Marco Túlio Cícero, os nossos clássicos, os grandes escritores de cultura anglo-saxónica da idade moderna e actual, Kafka, mestre Aquilino Ribeiro e outros mais.

Escrevo porque em poucas dezenas de anos, transportado na seta do tempo, atravessei várias eras e várias civilizações, cada qual com modo distinto de entender o ser humano e as suas relações cruciais com os grandes mistérios da vida; escrevo com o intuito de contribuir para resgatar o género humano do atulho em que a engrenagem económica, social, estatal, institucional, enfim todos os poderes opressivos, o cobre e amarfanha.

Escrevo para utilizar as utilidades e as vantagens noéticas, semiósicas e morfo-poiésicas (se assim me é lícito exprimir) que estruturam e modelam, a nível ontogenético, cultural, sapiencial, ético-axiológico, hermenêutico e comunicacional, o nosso modo de ser, estar, simbolizar, pensar e agir. Em suma: o suscitar das polimorfas relações, interacções e envolvências existenciais do ser humano na sua singularidade relacional, na sua “prometeica viagem filosófico-epistemológica”, nas palavras de Fernando Paulo Baptista.

O convidado

O Dr. João Lobo é natural de Santa Maria de Mós, Vila Verde, onde nasceu em 1951. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, exerce Advocacia em Braga. Tem dedicado a sua vida à Advocacia, à escrita e à política.
Interessando-nos, aqui, mais a vertente da escrita, refira-se que publica desde 1985, sendo as imagens dos dois livros aqui apresentados – A Culpa e Outros Contos Fantásticos e A Caminho do Coliseu Quadrado – os últimos que deu à estampa. Mas, apesar de não muito difundida nos círculos comerciais, a sua obra é vasta: em 1985 publicou o romance “A Praga”, em 1986 “O Paredão dos Lacraus”, em 1987 “A Fonte do Ídolo”, em 1991 “A Fantástica Aventura de Salomé Reconquilha e Seu Cão Tirone”. Ainda em 1991 saiu o seu livro de contos “Sol no Eirado”, em 1994 o diário “Olhar Suspenso”, as crónicas intituladas “Pequeno Dicionário da Infância” saem em 1997, o livro de contos “O Outro Lado da Luz” em 2004, “Viagens à Terra do Silêncio”, crónicas, em 2007. De novo contos, “Nove Passos no Infinito”, em 2009, “Os Senhores do Tempo” e “Diário da Vida de Um Mocho”, em 2010, e o livro de contos “O Voo do Noitibô”, em 2012. Em 2015 é a vez de “A Caminho do Coliseu Quadrado”, e finalmente “A Culpa”, em 2017.
Uma biografia vasta, a busca incessante de respostas para questões tão importantes como a culpa, a dicotomia entre o progresso que a história e a sua marcha nos proporciona e a perplexidade perante a pavorosa capacidade destrutiva que o progresso tecnológico acarreta. Uma escrita densa, por vezes difícil, com momentos de ternura perante o belo das coisas simples.
Um Advogado escritor para quem a escrita, a escrita ficcional, é uma aventura todos os dias

Utilizo, sempre que posso, o rigor e a beleza estético-literária para melhorar a arte da clareza e do convencimento, que também é a da Advocacia; escrevo (metaforicamente, já se vê) para evidenciar a incompletude do positivismo jurídico que nos dirige e combater o desbordo da injustiça, seja qual seja o modo e sede irradiante. Lobrigam-se já outros leviatãs a despontarem nos horizontes, e essa realidade proteica, avassaladora, aflige-me.

Escrevo porque sempre vi na figura do Advogado uma entidade troncal, que, além da lei, busca não apenas a justiça do caso, mas ainda a sua concreta dimensão constituenda ou restauradora na ordem social.

Escrevo, pois que, além do dever-ser-que-é que o caso reclama, há sempre um outro devir na gestão e modo-de-ser da Justiça que se inscreve além da singularidade apreciada. Para além do aparente, do contingente, há mundos em constante erupção que nos governam ou tendem a governar, ideias e valores que urge criticar, ou seguir, em homenagem à Justiça e à paz.

Por vezes, quem de boa consciência não sente que urge “descascar a cebola”, para usar o título de Gabo, e ao flibusteiro, seja ele a plana em que se encontre ou a dimensão em que se assuma, assentar fulminante cautério?

Escrevo porque no acto de escrever há sempre uma boa luta contra os deuses intermédios. Por isso, escrever é outra forma de prestar, não raras vezes, relevante serviço público. Escrevo porque tenho por certo que, em certas condições, a lei não igualiza, e só a ética, um juízo autovinculante apendoado ao justo, o pode fazer.

Escrevo porque o faço das fendas da colectividade, das “zonas brancas” furtadas ao Direito e à Justiça; porque defendo a liberdade de criação intelectual, de pensamento e de expressão, elementos basilares da república democrática; para aditar ao mundo o que sou e fugir à muda extensividade do indicto ou ao que já foi dito por outro ou por este sibilinamente imposto; escrevo para afirmar o novo substanciado pelo tempo, que é sempre constitutivo da verdade que se nos afigura no instante decisório.

É na escrita que guardo as palavras que integram a minha alma e a dos meus, a complexa fieira por onde dizíamos o mundo e nos ungiam as sombras da divindade. Escrevo para alimentar o sagrado da memória e garantir a identidade.

Escrevo porque o combate, mesmo de natureza jurídica, não prescinde da ironia, mesmo até do guinhol, onde se arma o sarcasmo e porque sei que há um sistema de vasos comunicantes de natureza biunívoca entre a literatura e a Advocacia. Reconheço na literatura uma extraordinária aliada da Advocacia, capaz de iluminar a sempre necessária adoração contemplativa de quem patrocina e de quem decide.

Apenas isto sei. No demais há que pedi-lo, decerto, a K. Jung e à sua “Psicologia das Profundidades”.
Texto João Lobo

Comissão para as Letras e as Artes da OA